A série “Saudade” é uma sequência de duas zines, em que o fio condutor foi o meu processo de luto pela morte da minha avó, que foi vítima de COVID-19 durante um dos picos da pandemia, em 2021. A sua partida levou consigo a minha primeira referência de lar, deixando para trás o chão que pavimentou a minha infância. Foram-se os móveis, as cores, os almoços de domingo, as festas e até o piso. Mas eu, não.
O projeto nasceu a partir de um ensaio feito durante uma visita à casa que pertenceu à minha avó, onde também morei, interditada e inabitada há alguns anos, antes mesmo de sua morte. O formato escolhido, inspirado na Crime Zine (2016), do artista canadense Trevor Yardley-Jones, simula a experiência de passear pelos cômodos deteriorados pelo tempo, enquanto é possível observar vestígios do que um dia esteve ali e permanece, por saudade e apego. As zines combinam fotografias em longa exposição com textos autorais, impressão em papel vegetal e intervenção com bordado.
sau.da.de
/au,a-u/
substantivo feminino
sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, uma coisa ou um lugar, ou à ausência de experiências prazerosas já vividas (freq. us. tb. no pl.).
Casa, para mim, é um assunto sensível, pois o sentimento de inadequação me acompanhou por muitos anos. Um dos motivos para isso foi a minha dificuldade de me desconectar da minha primeira casa, cenário deste trabalho. A casa foi esvaziada em 2010, como está até o momento presente, devido a um risco de desabamento causado pelo proprietário do terreno ao lado, quando demoliu o seu imóvel.
A ausência de vida e os espaços, agora vazios, requeriam pouca ou nenhuma intervenção nas imagens para transmitir com fidelidade o que senti ao fazer essa pequena viagem no tempo. 
ouvi dizer que
a saudade é o amor
que não tem
pra onde ir
mas a minha não
a minha sabe muito bem
onde fiquei
impregnada
infiltrada
em cada canto
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ouvi dizer que
a saudade é o amor
que não tem
pra onde ir
mas a minha não
a minha sabe muito bem
onde fiquei
impregnada
infiltrada
em cada canto
As zines foram impressas e confeccionadas, respectivamente, em papel couché fosco (capa), papel reciclado  (miolo), papel vegetal, sufite, papel paraná e linha comum de costura. 
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